As primeiras horas do dia têm um impacto desproporcional sobre como percebemos, reagimos e nos comportamos ao longo do dia. Muito além de um clichê de autoajuda, o que você pensa e diz a si mesmo logo após acordar atua como uma alavanca neurobiológica capaz de moldar seus sistemas cognitivos, emocionais e até fisiológicos. Neste artigo, exploraremos o papel das afirmações matinais sob a lente da neurociência moderna, incluindo sua influência na dopamina, cortisol, foco atencional, e plasticidade neural.
1. O Cérebro ao Acordar: Uma Janela de Alta Plasticidade
Durante os primeiros minutos após acordar, o cérebro transita das ondas lentas delta (sono profundo) para as ondas alfa e beta (vigília leve e ativa). Esta transição está associada a um estado de alta neuroplasticidade, em que os circuitos cerebrais estão mais suscetíveis a serem moldados por estímulos internos e externos【1】.
Além disso, o nível de cortisol — um hormônio chave do ritmo circadiano — atinge seu pico cerca de 30 minutos após o despertar, um fenômeno conhecido como cortisol awakening response (CAR). Esse aumento não está ligado apenas ao estresse, mas sim à mobilização de energia, atenção e prontidão cognitiva【2】.
Conclusão: Nesse período de “reprogramação”, o cérebro é especialmente sensível àquilo que pensamos, sentimos e dizemos.
2. Afirmações: Mais que Palavras, Sinais Neuroquímicos
Afirmações positivas, quando ditas com intenção e foco, ativam áreas do cérebro associadas à autorrelevância, recompensa e regulação emocional.
- Um estudo de 2016 publicado na Social Cognitive and Affective Neuroscience mostrou que autoafirmações ativam o córtex pré-frontal ventromedial, uma região ligada à autorreflexão e à modulação de emoções【3】.
- Outro estudo da Psychological Science demonstrou que a prática regular de afirmações está relacionada a maior resiliência ao estresse, melhor desempenho acadêmico e regulação emocional mais eficiente【4】.
📌 Afirmações como “Sou capaz de enfrentar meus desafios” ou “Hoje é um novo começo” não apenas motivam: elas estimulam a liberação de dopamina, neurotransmissor envolvido na motivação, expectativa de recompensa e aprendizado【5】.
3. Dopamina e o Loop da Motivação
A dopamina é liberada não apenas em resposta a recompensas, mas também à antecipação de sucesso. Quando afirmamos algo positivo sobre nosso potencial, o cérebro responde como se esse cenário estivesse se tornando real, criando um ciclo de reforço positivo【6】.
Esse efeito é mais pronunciado pela manhã, quando o cérebro ainda está “configurando” sua prioridade de foco. Afirmações intencionais nesta fase podem redirecionar o sistema de ativação reticular (RAS) — um feixe de neurônios no tronco cerebral que filtra o que você percebe como relevante【7】.
4. Cortisol: O Hormônio que Responde ao Seu Pensamento
Se os primeiros pensamentos do dia forem negativos, ansiosos ou autodepreciativos, eles potencializam a resposta do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), gerando picos elevados de cortisol. A exposição repetida a esse padrão matinal pode levar a:
- Disfunção cognitiva
- Comprometimento imunológico
- Alterações de humor【8】
Por outro lado, afirmações fortalecedoras matinais atenuam esse pico, promovendo um estado de alerta calmo e foco sustentável ao longo do dia.
5. Neuroplasticidade: Reprogramando a Identidade
Repetição é a chave. A neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de se reorganizar com base na experiência — se baseia no princípio de que “neurônios que disparam juntos se conectam”【9】. Logo, afirmar consistentemente:
“Sou resiliente.”
“Eu escolho agir com clareza e foco.”
“Sou grato e presente neste momento.”
…é mais do que otimismo. É reconectar redes neurais associadas à identidade, autoconfiança e tomada de decisão.
Com o tempo, essas afirmações tornam-se automatizadas no sistema límbico (responsável pelas emoções) e acessíveis no córtex pré-frontal (responsável pelas ações).
6. Afirmações Eficazes: Como Estruturar
Para que as afirmações gerem mudanças neurobiológicas reais, elas devem:
- Estar no tempo presente (“Eu sou”, não “Eu serei”)
- Ser específicas e significativas
- Estar alinhadas com valores internos
- Ser repetidas com envolvimento emocional
- Ser acompanhadas por visualizações e ações coerentes
Conclusão
Afirmações matinais não são superstição: são neurociência aplicada.
Elas representam uma forma prática e acessível de reprogramação neural autogerada, atuando diretamente sobre os sistemas que regulam humor, atenção, motivação e comportamento.
O que você diz a si mesmo nas primeiras horas da manhã pode literalmente redesenhar a arquitetura do seu cérebro, influenciando não só seu dia, mas sua identidade ao longo do tempo.
Seu diálogo interno é um código. E seu cérebro responde a ele com química, estrutura e ação.
Referências Científicas
- Cajochen, C. et al. (1999). Role of the circadian system in the regulation of human cognitive functions. Progress in Brain Research, 153.
- Clow, A., Hucklebridge, F., Stalder, T., Evans, P., & Thorn, L. (2010). The cortisol awakening response: more than a measure of HPA axis function. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 35(1), 97–103.
- Falk, E. B., O’Donnell, M. B., Cascio, C. N., et al. (2016). Self-affirmation alters the brain’s response to health messages and subsequent behavior change. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 10(6), 842–849.
- Sherman, D. K., & Cohen, G. L. (2006). The psychology of self-defense: self-affirmation theory. Advances in Experimental Social Psychology, 38, 183–242.
- Schultz, W. (2015). Neuronal Reward and Decision Signals: From Theories to Data. Physiological Reviews, 95(3), 853–951.
- Salamone, J. D., & Correa, M. (2012). The Mysterious Motivational Functions of Mesolimbic Dopamine. Neuron, 76(3), 470–485.
- Moruzzi, G., & Magoun, H. W. (1949). Brain stem reticular formation and activation of the EEG. Electroencephalography and Clinical Neurophysiology, 1(4), 455–473.
- McEwen, B. S. (2007). Physiology and neurobiology of stress and adaptation: central role of the brain. Physiological Reviews, 87(3), 873–904.
- Doidge, N. (2007). The Brain That Changes Itself. New York: Viking.





